Você não espera, não programa, acontece.
Eu sentei às três da tarde a uns dois metros
de onde ela estava tomando seu café. Era uma padaria pequena, localizada no
centro da cidade, frequentada por poucas pessoas, geralmente o movimento era
rápido e quase não se encontrava ninguém ocupando aquelas mesas no centro do
ambiente. Não era a garota mais bonita, nem de longe a mais estilosa. Normal, poderia
defini-la de muitas formas, mas normal era adequadamente correto.
Usava uma toca vermelha, tinha cabelos
compridos a qual aparentava não ver uma escova à no mínimo dois dias. Estava de moletom, — Sabe Deus o quanto eu odeio moletom — shorts um pouco acima do
joelho e um Vans extremamente sujo.
Se não fossem os seus cabelos, e a forma delicada com que ela os colocava atrás
da orelha enquanto lia, eu poderia jurar que era apenas um moleque.
Ela é o tipo de garota que não vai te chamar
atenção pela aparência, nem pelas pernas grossas e quase que definidas, talvez
ela aproveitasse aqueles dias em que o sol resolve ser maravilhoso desde as
sete da madrugada, — A meu ver, sete
horas é madrugada — e fosse correr na praia com seus fones de ouvido, provavelmente
ouvindo The Smiths ou coisa parecida,
ou talvez fosse à genética. Eu preciso parar de falar sobre as belas pernas
dessa garota.
Ela tinha um normal
incrível, era um normal gostoso de admirar. A forma com que passava o dedo na
ponta da língua para folhear a próxima página do livro prendia minha atenção de
tal forma, que provavelmente a assustaria caso estivesse me olhando também. Era a prova viva de que, existe sim amor à
primeira vista. Eu estava apaixonado, apaixonado por cada detalhe bobo presente
na minha frente.
É assim mesmo, não
ajuntei o livro que ela deixou cair no corredor da escola do ensino médio, não
ofereci carona pra ela depois de uma aula cansativa na faculdade e nem ao menos
fomos uma dupla formada pelo professor de biologia. Nunca nos beijamos, nunca fomos ao cinema,
nunca fomos amigos, nem se quer no Facebook,
nunca nem nos vimos. Mas eu sabia, no momento em que eu a vi, eu sabia.
Eu sabia que nos próximos
dias queria ter a oportunidade de olhar nos olhos dela, estava curioso para ver
aquela pinta que talvez ela tenha no ombro direito, e cheguei a fechar os olhos
para imagina-la brava. — Devo ter algum fetiche por pessoas nervosas — Estava
tentando criar a nossa ida ao cinema, as primeiras conversas no Whatsapp e o primeiro,
“boa noite” com um coração vermelho,
daquele psicopata que surgiu há pouco tempo na atualização do aplicativo, ele
pisca e é enorme, dependendo a pessoa que te manda, a vontade é de sair
correndo.
Sabe quando você está
sentado no ônibus ouvindo Skinny Love
da Birdy ou Broken
do Jake Bugg e de repente alguém
muito interessante está do lado de fora? Vocês trocam olhares, e nos olhares
trocam carícias, algo grita. “Ei, volta
aqui, aparentemente é você que eu busquei a vida toda.” Mas ai o ônibus
engata a primeira, engata a segunda e quando você percebe, os olhares se perderam
e você se perdeu novamente. Foi exatamente assim, só que agora, não teve
olhares correspondidos e eu não estou dentro de um ônibus.
Pensei alto: “É a minha chance, agora vai ser diferente!”. — Mesmo
que o mundo inteiro diga que não vai, mesmo que os infernos tremam e digam que
não e mesmo que o próprio céu se ponha contra, você acredita fielmente que por
um acaso da vida, dessa vez vai valer apena. —
Eu me levantei, bruscamente, era o nervosismo. Aproximei-me,
e lembro claramente das primeiras palavras absurdas e totalmente mal
elaboradas.
“Ei, me empresta o seu livro?”
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